" Eu sou do tamanho do que escrevo."
in "A palavra", jornal produzido na íntegra por Fernando Pessoa
segunda-feira, 31 de março de 2008
Desassossego
"Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra complexa vista e ouvida. E a gala de translineação greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."
"Que de Infernos e Purgatórios e Paraísos tenho em mim - e quem me conhece um gesto discordante da vida... a mim tão calmo e tão plácido?
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."
In PESSOA, Fernando, Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (3ª ed.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, # 259, 443, pp. 255, 391.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra complexa vista e ouvida. E a gala de translineação greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."
"Que de Infernos e Purgatórios e Paraísos tenho em mim - e quem me conhece um gesto discordante da vida... a mim tão calmo e tão plácido?
Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo."
In PESSOA, Fernando, Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa (3ª ed.), Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, # 259, 443, pp. 255, 391.
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